Sobre (de)formadores de opinião e aquecimento global
21 Maio, 2007Em um artigo de 15 de maio passado em seu blog Ciência em Dia, o jornalista Marcelo Leite comenta um artigo do dia anterior do jornal inglês The Independent sobre desmatamento e aquecimento global. O que me chamou a atenção no post do Sr. Marcelo Leite foi sua frase final comentando a foto de capa da reportagem: “E o Independent meio que pisou na bola, ao ilustrar sua capa com a foto de um pátio de serraria, pois aquela pilha de madeira não passa de um monte de carbono (biomassa) que não está contribuindo para o aquecimento global nem como causa oculta.” Creio que a melhor política para não se falar asneiras é não dar opiniões sobre o que se não conhece. Ao contrário do que muitos pensam, inclusive o bloguista em questão, a questão do desmatamento como causa de aquecimento global não se resume na retirada da madeira ou na queima da mata. Mesmo quando não se queima, o desmatamento expõe o solo aos agentes erosivos, água e vento, principalmente a primeira em climas tropicais úmidos. Mas porque o solo é importante neste caso, já que se está falando em aquecimento global? Bem, estima-se que a quantidade de carbono contida em toda a vegetação terrestre é de cerca de 550 Pg (petagramas, um petagrama corresponde a um trilhão de quilogramas ou 1.000.000.000.000.000 de gramas), já a estimativa para os solos é de cerca de 1600 Pg, considerando-se apenas o primeiro metro a partir da superfície. A retirada da cobertura vegetal acelera os processos de oxidação da matéria orgânica do solo, principalmente a decomposição microbiana, contribuindo para o aquecimento global, já que a decomposição de material orgânico libera CO2 e CH4 (gás carbônico e metano). Algúem poderia argumentar que nem todo o material orgânico do solo é decomposto, uma parte é perdida por erosão. Verdade, mas esta parte perdida por erosão poderá ser depositada em corpos d’água (represas, por exemplo) e sofrer uma decomposição parcial por falta de oxigênio e produzir metano, que também é um gás de efeito estufa só que 23 vezes mais potente que o gás carbônico. A perda da matéria orgânica do solo, quer por decomposição quer por erosão, entre outras coisas contribui para a degradação física e química do solo, ao desestabilizar a estrutura do mesmo e diminuir a capacidade de retenção de água e nutrientes, afetando a capacidade de recuperação do ecossistema. Não me parece que The Independent tenha “pisado na bola” nem de longe, o que não pode ser dito acerca dos comentários do Sr. Marcelo Leite.
Escrito por Italo M. R. Guedes




