Por que a OPEP odeia o etanol

23 Abril, 2008

Excelente entrevista com o Sr. Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, publicada no “Estado de SP” e reproduzida pelo Jornal da Ciência. Bom saber quais as estratégias utilizadas para demonizar o etanol. Vale conferir.


A mídia, o aquecimento global e as frieiras

11 Janeiro, 2008

Acabo de ler um dos melhores posts até hoje demonstrando o despreparo absoluto de boa parte da mídia para comunicar ciência. O texto é do blogueiro Widson Porto Reis, do excelente O Dragão da Garagem, e deve ser lido por qualquer um desejando imunizar-se contra os absurdos por aí escritos sobre o aquecimento global. O autor destrinça um artigo tolo de uma revista mineira em que a autora, entre outras pérolas, associa o aquecimento global com o aumento da incidência de micoses nos pés e com doenças de inverno…no Brasil! É necessário ler-se isto.


Enfim, tese

8 Janeiro, 2008

Afinal, terminei de escrever minha tese de doutorado e marquei a bendita defesa para próxima sexta-feira, dia 18. Fruto de muito esforço e uma dose cavalar de sacrifícios, esta minha dileta filha viu enfim a luz do mundo. Embora não possa ainda comentar sobre os resultados obtidos, devido à política em geral adotada pelos periódicos científicos de publicarem apenas resultados inéditos, e não sei se resultados comentados em blogs são considerados, posso proclamar ao mundo seu pomposo, embora provisório, título: “Ambiente físico, estoque de carbono de solos e vegetação e termodegradação da matéria orgânica de solos da Área de Proteção Ambiental Estadual Cachoeira das Andorinhas, Ouro Preto, Minas Gerais”, em que além de descrever a geologia, geomorfologia e os solos da dita APA, quantifico os estoques de carbono, principalmente em solos, e analiso a resistência desta matéria orgânica estocada ao calor. Embora, como já expliquei, não possa divulgar detalhadamente meus resultados por enquanto, posso adiantar que há grande influência no tipo de solo tanto sobre os conteúdos de carbono orgânico estocados quanto sobre sua estabilidade. Solos tropicais intemperizados profundos parecem ser bons estocadores de carbono, principalmente nos horizontes mais profundos. Esta matéria orgânica profunda é reconhecidamente estável, de forma que estes solos são uma boa aposta como seqüestradores de carbono no crescente mercado de venda de créditos de carbono visando compensar as emissões de CO2 por países desenvolvidos. Foi um trabalho árduo, mas prazeroso. Depois de dia 18 de janeiro poderei dizer se foi considerado bom o bastante para me fazer merecedor de um título de doutor em ciências.


Meandros da transposição

3 Janeiro, 2008

Ao contrário da blogosfera anglófona, os blogueiros de ciência brasileira parecem não se interessar muito pelos polêmicos assuntos locais. Até agora, não li nem um post sobre a importante questão da transposição das águas do rio São Francisco, que tanta atenção tem recebido da mídia, embora com raras intervenções de técnicos imparciais. Infelizmente, o fato que mais tem chamado a atenção é a teimosa greve de fome de um bispo católico que se opõe ao projeto, utilizando sua posição como líder religioso para influenciar nas decisões de um estado laico, o que por si só é um absurdo digno de extremistas de direita norte-americanos. Apesar destas palavras duras, também estou, a priori, contra a tal transposição. Considero-me um cientista e como tal, tiro minhas conclusões a cerca da realidade e dos fatos a partir de evidências científicas, quer alcançadas por mim, quer por pesquisadores capacitados em outras áreas do conhecimento. No caso da transposição, como não sou um especialista no assunto, minhas conclusões são em grande parte baseadas no trabalho do pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, João Suassuna, especialista em recursos hídricos do Nordeste e que vem pensando a questão da transposição há um bom tempo. Suassuna faz questionamentos de muita relevância, entre outras coisas, chama a atenção para o absurdo de trechos do canal a céu aberto em um clima semi-árido onde as perdas de água por evaporação podem estar próximos dos 2000 milímetros, apesar da pluviosidade flutuar em torno de 700mm; questiona a origem da energia para elevação da água em vários trechos; e chama a atenção para o fato de uma decisão que deveria ser eminentemente técnica estar tomando um rumo muito mais político. Esta é uma discussão séria, da qual se deveriam deixar afastados diferenças ideológicas, discursos demagógicos e miopia ambiental.


Estoques de carbono, erosão e boa ciência I

14 Novembro, 2007

Estoque de carbono do solo é uma estimativa da massa total de carbono orgânico (e/ou inorgânico) de um solo, levando em consideração a profundidade (espessura) do solo e sua densidade. Por que conhecer os estoques de carbono nos solos? Atualmente, de forma pragmática, estas estimativas são feitas visando avaliar o quanto poderia ser perdido no caso de haver mudanças no uso da terra. Estima-se que de 1850 a 1998, mudanças no uso que se faz das terras (basicamente derrubadas de florestas ou outros tipos de vegetação nativa para implantação de agricultura) tenham sido responsáveis pela emissão líquida de em torno de 136 Pg (petagramas, um petagrama corresponde a um trilhão de quilogramas ou 1.000.000.000.000.000 de gramas) de C principalmente na forma de dióxido de carbono (CO2) para a atmosfera tanto pela decomposição dos restos vegetais quanto pela oxidação da matéria orgânica do solo. Segundo pesquisas, a perda histórica de carbono orgânico do solo em terras convertidas à agricultura pode variar de 30 a 40 t/ha. Esta quantidade é muitas vezes correspondente a todo o carbono de horizontes superficiais de alguns solos. O conhecimento dos estoques de carbono em solos pode auxiliar inclusive no planejamento de uso da terra bem como no estabelecimento de limites de perdas toleráveis nos teores de matéria orgânica do solo e da correção de práticas de manejo. Pelo que posso observar nas pesquisas que se tem feito sobre a capacidade dos solos em seqüestrar carbono, muitos têm considerado que a perda de matéria orgânica representa uma oportunidade para que fontes de CO2 se tornem agora sumidouros (seqüestradores). Em solos em que se perdeu apenas ou majoritariamente a matéria orgânica, principalmente por oxidação biológica ou não, isto pode ser factível. Mas o que dizer de solos em que se perdeu a matéria orgânica, juntamente com a fração mineral do solo, por erosão, solos onde houve muitas vezes perda completa do horizonte superficial? Para ilustrar isto usarei uma metáfora facilmente entendível: uma coisa é perder água de um reservatório por evaporação, outra coisa é perdê-la porque o reservatório foi destruído. Aliás, esta é uma preocupação relevante inclusive face a um artigo publicado no último dia 26 de outubro na Science intitulado “The impact of agricultural soil erosion on the global carbon cycle” em que os pesquisadores concluem que a erosão de solos agrícolas constitui antes um sumidouro que uma fonte de CO2 para a atmosfera, embora não um sumidouro considerável. Entendamos o contexto do trabalho. Por um tempo (e ainda hoje) muitos cientistas do solo e outros afirmavam que a erosão dos solos agrícolas constituiria uma fonte de gases de efeito estufa para a atmosfera porque praticamente toda a matéria orgânica neles contida acabaria rapidamente decomposta. Logo se viu no entanto que havia uma falha neste raciocínio: obviamente uma boa parte da matéria orgânica erodida seria enterrada junto com os sedimentos minerais, principalmente sob a água, e se tornaria indisponível aos microrganismos decompositores, ficando assim seqüestrada por um tempo porventura maior do que se continuasse no solo intacto. A dúvida era qual dos dois efeitos preponderava: a decomposição ou o seqüestro. Segundo os autores do trabalho citado acima, prepondera o seqüestro, embora por uma pequena margem. Bom. Mas falar em termos globais muitas vezes não leva em consideração os efeitos de curto prazo locais. Apesar de a matéria orgânica estar estabilizada nos sedimentos, permanece o fato de que há solos agrícolas que a perderam e que possivelmente perderam e perdem produtividade com isso. Não apenas produtividade em termos químicos, mas há perda também da qualidade biológica e física dos solos, impedindo que haja crescimento ideal das plantas que poderiam fixar mais carbono.   


Álcool e bom senso

20 Setembro, 2007

Ainda existe bom senso neste mundo. Em um editorial de ontem (19/09/2007), o jornal americano New York Times faz duras críticas ao programa americano de produção de etanol (álcool combustível). Além de ser um processo mais caro do que se produzir álcool a partir da cana-de-açúcar (para se produzir álcool a partir da cana, utiliza-se o açúcar simples produzido, no caso do milho, é necessário que se quebre as moléculas de amido em acúcar e só então se produz o álcool), a utlização do milho para produzir etanol tem causado altas no preço desta commodity agrícola. O editorial aproveita para criticar os altos impostos cobrados para se importar etanol brasileiro bem como os subsídios que os produtores americanos de milho recebem. É bom que se deixe bem claro quem é o melhor neste caso.


Vírus de abelhas

12 Setembro, 2007

Há algum tempo tem havido preocupação entre os criadores de abelhas americanos sobre a mortandade de suas colméias comerciais. A causa do problema tem se mantido quase misterioso mas agora parece que finalmente se resolveu parte do problema com a implicação de um vírus na mortandade. A notícia li aqui, mas detalhes mais completos podem ser acessados a partir daqui.


Livreto sobre desertificação

11 Setembro, 2007

A World Meteorological Organization (Organização Meteorológica Mundial) lançou um interessante livreto sobre desertificação e mudanças climáticas globais, disponível gratuitamente online. Intitulado “Climate change and desertification”, apresenta um resumo do que se sabe até agora sobre a relação entre desertificação e mudanças climáticas. Pode ser baixado a partir desta página.


Como fazer um post de divulgação científica

30 Agosto, 2007

Considero este post sobre a vitamina A um exemplo paradigmático do que é um bom artigo de divulgação científica. Conciso, claro, exato. O autor do post (e dono do blog Sandwalk) chama-se Larry Moran, professor de Bioquímica da Universidade de Toronto no Canadá e autor de livros-texto em Bioquímica. O blog é um dos melhores que já li e dos meus prediletos. Em tempo, Sandwalk (algo como passeio de areia) é um caminho localizado atrás da casa de Charles Darwin.


Pequena apresentação de Carlos Pacheco

28 Agosto, 2007

Bem, em primeiro lugar gostaria de deixar claro a satisfação de fazer parte da comunidade Geófagos. Meu nome é Carlos Pacheco, sou Engenheiro Ambiental e mestre em Solos e Nutrição de Plantas pela Universidade Federal de Viçosa. Atualmente venho cursando meu doutorado também em Solos e Nutrição de Plantas pela mesma instituição.

Atualmente muito se tem falado sobre a questão ambiental. Porém, uma primeira discussão se faz necessária, a diferença entre opiniões de “ambientófilos” e “ambientólogos”. Hora, quais os significados dessas palavras? Bem, os radicais formadores já dizem tudo a respeito, onde a primeira estaria relacionada a “amigos ou simpatizantes do ambiente” enquanto a segunda estaria relacionada a “estudiosos ou profissionais da área ambiental”.  Claro que boa parte dos “ambientólogos” também são “ambientófilos”, mas o contrário nem sempre ocorre. Quando ouvimos comentários acerca de possíveis impactos ambientais de determinado empreendimento temos que processá-los criticamente colocando a nossa “massa cinzenta” para processar. O ambiente pode ser entendido como um triângulo, onde três meios estão nos seus vértices, são eles o sócio-econômico, o físico e o biótico. Resumidamente o sócio-econômico trata de questões relacionadas ao poder de modificação ambiental do “bicho homem”, o físico trata de questões relacionadas aos componentes físicos que nada mais são que a água, o solo e o ar, enquanto que o biótico trata das questões relacionadas à flora e à fauna. Os impactos ambientais, por sua vez, são alterações nas propriedades de um dos três meios causadas pelo homem e podem ser positivos ou negativos. Isso mesmo, existem impactos ambientais positivos também. Nesse sentido posso citar que a geração de empregos e a criação de reservas particulares do patrimônio natural podem ser considerados impactos positivos de um determinado empreendimento, enquanto o aumento no nível de ruídos, alterações para pior da qualidade da água, solo e ar e redução do hábitat de determinada espécie podem ser entendidos como impactos negativos. Bem, exposto isso pode-se concluir que o que se convencionou chamar de “desenvolvimento sustentável” deve, primordialmente, conseguir um certo equilíbrio entre os impactos positivos e negativos nos três meios. Assim, as atividades econômicas tem seus impactos vistos por um “ambientólogo” como resultados dos diversos processos que a compõem, sendo a sua “viabilidade ambiental” determinada pelos “pesos dos impactos”. É como se colocássemos numa balança os impactos positivos e negativos. Se o saldo for positivo para os positivos a atividade é benéfica, enquanto se a balança tender para os impactos negativos a atividade será considerada maléfica. Muitas vezes nos deparamos com opiniões de “ambientófilos” condenando veementemente uma ou outra atividade econômica sem que os impactos sejam colocados na balança. Isso nada mais é do que uma pré-condenação ou um pré-conceito de determinada atividade. O meu objetivo nesse blog é procurar esclarecer algumas situações colocadas pelos leitores e dentro do possível torná-los “ambientólogos”, o que de maneira alguma os farão deixar de serem ”ambientófilos”, muito pelo contrário, à medida que se conhece os processos envolvidos com a questão ambiental maior tendência os leitores terão de se tornarem amantes das ciências ambientais. Espero que nossas discussões sejam construtivas, tratando multidisciplinarmente as questões ambientais, como por essência elas devem ser. Obrigado pela atenção de vocês leitores e até uma próxima jornada.


Novo site do Geófagos

28 Agosto, 2007

Caros leitores, o nosso blog Geófagos mudou de endereço e de cara. Podemos considerar que o Geófagos conquistou um público leitor fiel e o número de acessos alcançou um patamar considerável (mais de 25000 na data atual). Talvez devido ao maior alcance, esperamos que também por causa da qualidade do que foi escrito, o número de consultas sobre assuntos relacionados a agricultura e meio ambiente se tornou maior do que o autor inicial poderia atender sozinho. Pensando nisto, e entendendo que muitas destas consultas tinham um fim comercial, decidimos convidar dois colegas que passaram a ser contribuidores do novo blog “Geófagos, tópicos em agricultura e meio ambiente” e ao mesmo tempo sócios em uma consultoria em agricultura e meio ambiente, cuja página pode ser acessada no topo da página de abertura deste site e que se chama “Geófagos, soluções em agricultura e meio ambiente”. O blog agora está na plataforma WordPress e, além do Ítalo Moraes Rocha Guedes, será escrito em conjunto com o Carlos Eduardo Pacheco Lima e o Juscimar da Silva, ambos colegas no doutorado em Solos e Nutrição de Plantas da UFV. Não tenho dúvidas que o novo blog terá a qualidade do antigo blog e de que será até melhor, mais abrangente e mais interativo. Continuem nos lendo.


Façamos as coisas d’outro modo

31 Julho, 2007

Aprecio muito ler biografias de cientistas, em meu caso, creio que serve do mesmo jeito que antigamente as pessoas religiosas liam vidas de santos: procuro modelos em que me espelhar, sem no entanto sequer pensar em simplesmente imitar. Muitas das biografias de cientistas brasileiros da primeira metade do século XX falam de um modo diferente de pensar e fazer a universidade de então, algo mais próprio nosso, sem macaquear os americanos. Em nenhuma das biografias que li havia a descrição detalhada de como isto era feito, mas imagino que devia ser uma universidade mais próxima de nossa herança cultural, de nossos valores intelectuais, talvez até de nosso ritmo. De toda forma, a opinião dos que descrevem aquele estado de coisas inicial o fazem favoravelmente. Depois veio a inevitável (parece) tendência de imitar os americanos, transplantando um tipo de universidade e um ritmo que nada tinham a ver conosco. Realmente parece que gostamos de imitar, agora até mesmo começamos a fazer pós-doutorados um atrás do outro, não pelas mesmas razões dos americanos, mas o importante é que façamos o que eles fazem, algo como os proverbiais aborígines fabricando capacetes de madeira e falando para o céu à espera do avião que nunca virá. Nesta nova ferramenta de potencial divulgação de conhecimento que são os blogs também já começamos a macaquear os americanos. Quando me propus a publicar um blog de divulgação científica, a idéia que tinha (e tenho) era realmente explicar as coisas o mais didaticamente possível, mostrando ao leitor o quão interessante e relevante seria para sua vida os estudos feitos no ramo da ciência ao qual me dedico. Pensei, algo ingenuamente, que isto seria a regra entre os blogueiros ditos divulgadores de ciência. Via e vejo os blogs como possível escapatória do ciclo de produção de artigos científicos dos periódicos especializados em nossa cultura científica, a partir dos quais pouco conhecimento chega ao leigo. Tenho visto muito em minha área (e realmente não sei se acontece em outras, mas não duvido) os pesquisadores escreverem artigos para serem vistos por outros pesquisadores, ponto final. Agora, parece-me, já há blogueiros que escrevem para blogueiros, em flagrante imitação de bloggers. Claro, o que cada um escreve em seu blog é uma escolha própria, nada tenho a ver com isso, mas não me abstenho de dar minha opinião. O que tenho lido são infindáveis discussões de o que é divulgação científica, como se faz, se é eficiente, a quem atinge, qual a filosofia a ser adotada, enfim, discussões interessantes para quem as discute, mas não creio que seja para quem busca conhecimento científico. Há exceções. Gosto muito do formato do blog Meu amigo soxhlet, do Por dentro da ciência, do Orquidofilia e Orquidologia, entre outros. São blogs escritos por cientistas, interessados principalmente em ensinar, em divulgar ciência. Vão bem ao contrário dos principais bloggers de ciência americanos, atualmente mais interessados em polêmicas e em dar opiniões muitas vezes tão dogmáticas quanto às daqueles que antagonizam. Aliás, penso que a melhor maneira de se combater os neoobscurantistas e as pseudociências que por aí grassam é divulgando o conhecimento científico o mais amplamente possível. Façamos as coisas de outro modo, do nosso modo. Esqueçamos os posts destinados a chocar pela opinião extravagante, escrevamos posts explicando o funcionamento do universo, por longos que sejam. Acho até que a predominância de posts curtos, telegráficos, não é algo nosso. Somos ibéricos, tendemos a gostar da palavra escrita. Escrevamos, longos posts que sejam, façamo-lo bem e ensinemos, esperando que os outros aprendam a pensar criticamente, que é o que faz todo bom cientista e blgueiro (ou bloguista).


O caminho das plantas

12 Junho, 2007

No post passado falei sobre minha viagem à Serra do Cipó acompanhando o amigo Elton Valente em algumas coletas referentes a sua tese de doutorado. Creio que devo comentar alguma coisa sobre sua hipótese de trabalho e alguns insights que tive após a viagem. Basicamente o Elton está analisando os vários tipos de vegetação que ocorrem em determinados locais da serra e os solos associados a estas vegetações. Há lá em cima alguns capões de mata com várias espécies que aparentemente também ocorrem na Mata Atlântica. Supõe meu amigo que estas espécies ali chegaram seguindo a drenagem, ou seja, seguindo os meandros dos rios que nasciam na serra e passavam pelas áreas onde grassava a Mata Atlântica, hipótese interessantíssima. Em outubro de 2006 escrevi aqui no Geófagos um post sobre a origem do solo seguindo a colonização dos continentes pelas plantas há cerca de 400 milhões de anos, no Devoniano. Para mim, era até há pouco um problema a me desafiar a imaginação como as plantas colonizaram as terras emersas. A sabedoria chinesa tem um ditado que diz “Se queres conhecer o mundo, observa teu quintal”. Estava eu este fim de semana observando colônias de pequenas plantas conhecidas como briófitas em umas rachaduras (parecidas com pequenos rios meandrantes) no concreto do quintal da casa onde estou morando e ao mesmo tempo lembrando da hipótese do Elton quando de repente me vem destes insights nada geniais mas afortunadamente esclarecedores para os que os têm: as plantas devem ter colonizado a terra seguindo a drenagem, “ao contrário do rio, nadando contra as águas, e nesse desafio, saindo lá do mar” e ganhando a terra e a eternidade.


Fui à praia

4 Junho, 2007

Os leitores assíduos (espero que existam) devem ter notado minha ausência na semana que passou. Fui a uma praia…pré-cambriana! Isso mesmo, tive a oportunidade de acompanhar o amigo Elton Valente ao local onde está fazendo sua tese de doutorado, a Serra do Cipó. Os que conhecem o local devem pensar que enlouqueci, afinal a Serra do Cipó está a centenas de quilômetros da praia. Não, não tive um surto psicótico. A Serra do Cipó provavelmente foi uma extensa praia há centenas de milhões de anos, no pré-cambriano. O que atesta isso é a rocha predominante na região, o quartzito. O quartzito era originalmente uma rocha sedimentar conhecida como arenito, a qual é formada pela deposição de sedimentos arenosos (como as areias de muitas praias) ao longo das eras geológicas. Este arenito sofreu influência de pressão e temperatura, passando por uma série de fenômenos conhecidos coletivamente como metamorfismo e se transformou no quartzito atual. Tive a oportunidade de visitar várias das formações vegetais da Serra do Cipó, desde matas até complexos rupestres. Aconselho aos que puderem fazer esta viagem, de preferência acompanhados de um pedólogo.


Terras pretas de índio: monturos arqueológicos

24 Maio, 2007

Meu amigo Guilherme Resende Corrêa, geógrafo e mestrando em Solos e Nutrição de Plantas, apresentou ontem um seminário sobre seu assunto de tese: a descrição e classificação dos solos arqueológicos amazônicos conhecidos como Terras Pretas de Índio ou Terras Pretas Arqueológicas. Segundo as evidências mais fortes, estes solos foram formados ao longo de séculos em locais de antigas povoações indígenas amazônicas, muitas contendo milhares de habitantes. Nos locais onde estes antigos brasileiros jogavam os resíduos orgânicos e não orgânicos formaram-se estes solos de alta fertilidade que contrastam com os solos quimicamente pobres do entorno. Muitas destas terras pretas são usadas hoje para a agricultura dos caboclos amazônicos e em geral são muito procuradas devido a sua riqueza em matéria orgânica e em elementos básicos (cálcio e magnésio) e fósforo. Alguns cientistas, brasileiros e estrangeiros, envolvidos na pesquisa destes solos têm recentemente feito estudos sobre a viabilidade de se tentar imitar os processos que levaram à formação destes solos arqueológicos para formar solos similares atualmente, alguns visando uma agricultura mais sustentável na Amazônia, outros pensando na possibilidade de se seqüestrar carbono. Nesta última linha destaca-se o cientista americano Johannes Lehmann que no último dia 10 de maio publicou na Nature o artigo “A handful of carbon” justamente propondo a “produção em massa” de terras pretas com o intuito de se seqüestrar carbono para aliviar o efeito estufa. Atualmente estou lendo os artigos do autor nesta linha e logo pretendo postar minhas opiniões aqui no Geófagos. Para concluir, gostaria de lembrar que no sertão nordestino é comum plantar-se principalmente milho e feijão no monturo das casas sertanejas, prática eternizada na música “O jumento é nosso irmão” de Luiz Gonzaga, que é exatamente o local onde os sertanejos eliminam os resíduos domésticos e a preferência por estes locais se deve exatamente pela maior fertilidade e possivelmente maior retenção de água. Sem saber, estes camponeses têm feito o que hoje se chama de ecossystem engineering, engenharia de ecossistemas, formando solos que no futuro talvez venham a ser chamados de Terras Pretas de Sertanejos.