Famosos Geófagos

20 Junho, 2008

Primeiramente, gostaria de pedir desculpas aos fiéis e novos leitores pelo silêncio do Geófagos na última semana. Por coincidência, todos os colaboradores encontram-se neste momento absurdamente preocupados com o futuro profissional, uns escrevendo tese, outros defendendo, outros ensinando, um procurando emprego. Mesmo assim, atingimos o patamar dos 600 acessos diários e acabamos de atingir a memorável marca dos 40.000 acessos desde que mudamos para o WordPress, mais os 35.000 no antigo Geófagos da plataforma Blogspot, perfazendo cerca de 75.000 acessos desde a criação do Geófagos em julho de 2006, então uma tímida e solitária empreitada deste blogueiro. Somos agora quatro Geófagos, dois dos quais doutores (o Juscimar Silva acaba de defender tese), mais de 150 posts publicados, há em torno de 25 outros blogs amigos contendo links para nosso blog e inúmeros leitores. Fomos recentemente citados no blog Terra Sigillata, um dos blogs de ciência mais lidos do mundo, da plataforma ScienceBlogs, e para nossa imensa satisfação fomos hoje mesmo citados no site do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa, que apesar de ser nossa “sede”, ainda não nos tinha notado. O Geófagos está, para nossa felicidade, mais do que solidamente estabelecido. Obrigado a todos que nos lêem e citam, garantimos que a qualidade dos posts continuará a mesma ou melhorará. Pedimos aos leitores que comentem mais o que é aqui publicado, assinem o blog e sugiram assuntos, dentro dos objetivos do mesmo. Obrigado a todos. 


Adubo, comida e fezes urbanas

28 Maio, 2008

No filme Waterworld, com o ator americano Kevin Costner como protagonista, a maior parte das terras emersas desapareceu (possivelmente por descongelamento de geleiras polares em uma Terra mais quente) a ausência de terras agricultáveis força os humanos a reciclarem seus mortos visando a reutilização dos nutrientes neles “seqüestrados”. Embora não ache a idéia de modo algum absurda, não creio que precisemos de atitudes como esta tão rapidamente. No entanto, penso que a humanidade se defrontará com desafios semelhantes em um futuro próximo e soluções inovadoras serão necessárias. Para produzir alimentos para uma população crescente e manter os preços destes alimentos em níveis acessíveis, parece ser necessário fazer agricultura em escala industrial e a única forma até agora utilizada para isto é usando-se quantidades grandes de insumos, principalmente adubos. Os adubos, ou fertilizantes, garantem a nutrição mineral das plantas cultivadas e a necessidade de seu uso advém do fato de que os solos possuem um estoque finito de nutrientes minerais. Uma vez exauridos estes estoques, faz-se necessária a aplicação de fertilizantes concentrados para a manutenção da produção agrícola. Os nutrientes minerais são absorvidos pelas raízes e então distribuídos para as várias partes do corpo da planta. Quando se colhe uma cultura agrícola, embora alguma parte da vegetação permaneça no campo de cultivo  devolvendo ao solo os nutrientes absorvidos após a decomposição do material orgânico, uma fração considerável, e em alguns casos majoritária, é retirada da área de cultivo e os nutrientes nestes produtos são irreversivelmente “exportados”. O fato de estes nutrientes exportados não serem recuperados para as terras produtoras é uma das causas maiores da necessidade do uso de fertilizantes. Mas qual o problema de se usar adubos? Alguém mais ou menos familiarizado com o assunto pensaria logo na poluição das águas subterrâneas e estaria certo. Este problema, porém, pode ser contornado ou resolvido pela adoção de práticas adequadas de manejo da adubação. O grande problema é que as fontes de adubo são finitas e estão escasseando rapidamente. O cloreto de potássio, por exemplo, maior fonte de adubos potássicos, vem de depósitos minerais de evaporitos em países como China e Rússia, embora também haja alguma coisa no Brasil. As principais fontes de rocha fosfatada estão no norte da África e já se exaurem. Mesmo a uréia, produzida a partir do nitrogênio atmosférico, depende do petróleo. Utilizando uma frase querida aos eco-catastrofistas, este modelo é claramente insustentável. Não importa o que dizem as grandes empresas do ramo e seus asseclas acadêmicos, basta pensar um pouco. E quais as soluções para isso? Não, não creio que a resposta está somente na adoção de agricultura orgânica, embora uma série de recentes artigos no Agronomy Journal tenham afirmado ser este tipo de agricultura tão produtiva quanto a convencional em condições ambientais específicas nos Estados Unidos. Acho que as alternativas do tipo Waterworld têm papel central. Adotando um tom profético, acredito que chegará um tempo, e não está longe, em que serão necessários cálculos para se retornar os nutrientes exportados aos campos de cultivo, talvez na forma de fezes tratadas e desidratadas ou, melhor ainda, compostadas, com ou sem calcário, uso de biossólidos (lodos de esgoto urbano e industrial) e outras. Quase toda a cenoura produzida na pequena cidade mineira de Rio Paranaíba, por exemplo, é vendida em São Paulo ou na distante Fortaleza. Dentro das cenouras vão preciosos nutrientes que jamais verão os solos de Rio Paranaíba novamente. Isto não pode continuar desta forma, definitivamente, não há sustentabilidade neste modelo. Se os moradores das grandes cidades, preocupados com o meio ambiente, confortáveis em encontrar um bode expiatório para a degradação no mundo, querem contribuir para uma agricultura sustentável, que nos devolvam a bosta! É necessário começar a pensar, ousadamente.


Uma introdução à origem dos solos II

23 Maio, 2008

Para qualquer especialista em algum ramo do conhecimento científico, ou melhor, para qualquer especialista, deve parecer frustrante o desconhecimento dos leigos, a falta de interesse até. Para aqueles realmente engajados em sua área de conhecimento, não deve ser incomum a impressão de que o que falta é uma divulgação adequada do assunto para tornar qualquer adolescente apático em um aficionado. Para mim tem sido muitas vezes frustrante a indiferença sarcástica quando informo ser um especialista em solos, as pessoas parecem pensar que sou um doutor em poeira ou, talvez, em nada. Tenho encontrado até mesmo agricultores quase indignados ao presenciarem um pedólogo examinando um perfil de solo, como se isto fosse uma atividade indigna de um homem crescido. O problema parece ser conceitual. Para a grande maioria, a palavra solo invoca algo muito diferente do que imagina um cientista do solo. Para o público leigo, solo é terra, é poeira, é meramente o chão, um suporte para os pés e para plantas. Não é algo que mereça estudos, não é sequer tridimensional, é uma superfície monótona. Para um cientista do solo, seu objeto de estudo é um corpo complexo, rico de informações, vivo e suportando uma infinidade de seres vivos, incluindo nós mesmos. Para nós, especialistas, não há um solo, há solos. Esta entidade é tão complexa e variável no tempo e no espaço que merece um sistema de classificação. Sim, existe um Sistema Brasileiro de Classificação de Solos, assim como existe um americano, o mais usado internacionalmente e chamado Soil Taxonomy, existe um sistema francês, um russo e até um internacional, da FAO. O Sistema Brasileiro de Classificação de Solos inicia sua conceituação de solo desta forma: “O solo que classificamos é uma coleção de corpos naturais, constituídos por partes sólidas, líquidas e gasosas, tridimensionais, dinâmicos, formados por materiais minerais e orgânicos que ocupam a maior parte do manto superficial das extensões continentais do nosso planeta, contém matéria viva e podem ser vegetados na natureza onde ocorrem e, eventualmente, terem sido modificados por interferências antrópicas.” Este trecho é riquíssimo em possibilidades interpretativas, mas gostaria agora de chamar a atenção para o termo tridimensional. O solo não é apenas superfície, ele tem profundidade, tem três dimensões. Continua o texto: “Quando examinados a partir da superfície [os solos] consistem de seções aproximadamente paralelas - denominadas horizontes ou camadas - que se distinguem do material de origem inicial, como resultado de adições, perdas, translocações e transformações de energia e matéria”. Estas seções aproximadamente paralelas à superfície, os horizontes ou camadas, são melhor exemplificadas na imagem abaixo:

Perfil de Espodossolo

A fotografia mostra um perfil de um exemplar da classe dos Espodossolos, que tipicamente apresentam horizontes claramente individualizados. Isto, obviamente, nem sempre ocorre e não é incomum a descrição de solos cujos horizontes não são tão claramente discerníveis.


Uma introdução à origem dos solos I

12 Maio, 2008

Em sua novela de ficção científica The Forgotten Planet publicada em 1954, Murray Leinster descreve as condições de superfície do tal planeta esquecido da seguinte forma (tradução minha): “Nenhum animal vagava por seus continentes. Nenhuma vegetação crescia a partir de suas rochas. Nem mesmo bactérias lutavam para transformar as pedras em solo. Não havia solo. Rochas, pedras, cascalhos e mesmo areia estavam presentes. Mas nada de solo onde pudesse crescer algum vegetal. Nada vivo, por menor que fosse, nadava em seus oceanos, não havia sequer lama no fundo dos mares. Este era um daqueles muitos tristes mundos que apareceram quando primeiro se explorou a galáxia. As pessoas não podiam colonizá-lo porque nada vivera lá antes.” Poucas vezes li uma descrição tão didática e cativante da importância do intemperismo na existência de vida em um planeta. Vale salientar que esta história começou a ser escrita na década de 20 do século XX. Neste início de século XXI parecem ser tão poucas as pessoas conhecedoras dos processos originadores do solo ou que se dão conta do papel fundamental deste filho tardio do intemperismo em suas vidas. Aliás, vida é uma palavra chave quando nos referimos ao solo. Como o trecho deixa claro, mesmo na ausência de organismos há quebra de rochas em frações mais ou menos grosseiras: pedras (que chamaríamos de matacões), cascalho e areia são resultado do intemperismo físico das rochas por processos como mudanças bruscas de temperatura, formação de gelo, cristalização de sais em fraturas, impactos ou mesmo a ação constante das gotas de chuva, de que bem fala o provérbio. Em planetas com vulcanismo ativo, expelindo gases de reação ácida, pode haver mesmo intemperismo químico, indispensável para a formação dos minerais de argila, cujas cargas de superfície preservam os elementos químicos que nutrirão os vegetais. Mas sem a ação de seres vivos não se pode chamar este produto do intemperismo de solo, é no máximo sedimento, um estágio intermediário, um proto-solo, na expressão dos pedólogos americanos Buol, Hole e McCracken, para os quais “a principal diferença entre solo e material geológico é a presença, no solo, de raízes vivas e de depósitos de materiais orgânicos e minerais originados na zona radicular”. Apenas depois da colonização dos continentes pelos descendentes das cianobactérias, as plantas, possivelmente nos idos do Devoniano, há cerca de 410 milhões de anos, pode-se dizer que surgiu o solo como o conhecemos (ou não conhecemos, na maior parte das vezes), esta entidade tridimensional complexa, muito mais do que apenas poeira superficial. Um dos eventos mais importantes na história da vida foi o surgimento de raízes. Os grandes ciclos biogeoquímicos hoje ativos começaram então, acompanhados de mudanças drásticas na química das águas continentais e oceânicas e, talvez, de grandes episódios de extinção. A terra nunca mais seria a mesma.


Seqüestro de carbono em solos tropicais II

28 Abril, 2008

Em solos tropicais profundos, submetidos a grande atividade bioturbadora (misturadora) da mesofauna (principalmente cupins e minhocas, mas também formigas e outros invertebrados), como os Latossolos, há presença de estoques de carbono consideráveis em profundidade, até mesmo com valores numericamente superiores aos estoques superficiais. No ambiente tropical não se podem considerar razoáveis estimativas de estoque de carbono que não contabilizem o que está armazenado subsuperficialmente nem adequadas ou eficientes estratégias de manejo de solos ou ecossistemas pensadas sem o levar em conta. Trata-se de uma promissora área de estudo, por serem ainda escassos os trabalhos contabilizando os estoques de carbono profundos em solos de regiões tropicais em escalas mais detalhadas, e ainda menos investigada a influência das práticas de manejo do solo sobre o compartimento. Saber-se quanto carbono se encontra acumulado no solo sem uma noção de sua estabilidade frente a mudanças ambientais traduz-se em conhecimento limitado. As perdas naturais de carbono orgânico do solo (COS) não são homogêneas, variando entre classes e regiões. Tanto a natureza da matéria orgânica do solo quanto as interações entre esta e o ambiente, quer seja no solo ou fora deste, influenciam sua estabilidade no solo. De particular importância são as interações com a matriz mineral, principalmente as argilas, que podem estabilizar a matéria orgânica no solo, dificultando sua perda na forma de CO2. Aliar as informações quanto ao carbono estocado com dados confiáveis sobre sua estabilidade torna mais factível estabelecer quais áreas são mais vulneráveis, auxiliar no planejamento de uso da terra e inclusive no estabelecimento, em áreas convertidas à agricultura, de valores padrões de perdas toleráveis de matéria orgânica do solo visando minimizar a perda de qualidade do solo.


Seqüestro de carbono em solos tropicais I

24 Abril, 2008

Na iminência de mudanças climáticas de controversa reversibilidade, a importância do conhecimento dos estoques de carbono em diferentes classes de solos está ligada à tentativa de avaliar o que poderá ser perdido no caso de mudanças no uso da terra com a adoção de práticas intensificadoras da decomposição ou mineralização da matéria orgânica ou de aumentos de temperatura como conseqüência das mudanças climáticas globais e, mais recentemente, o que isto pode representar em termos de serviços ambientais de estocagem de carbono pelos solos. As estimativas do que se encontra estocado na forma de carbono orgânico nos solos do mundo variam de 1500 a 2300 Pg (petagramas, um petagrama corresponde a um trilhão de quilogramas ou 1.000.000.000.000.000 de gramas), dependendo da profundidade considerada. Estima-se que de 1850 a 1998, mudanças no uso da terra (basicamente desmatamento para implantação da agricultura) tenham sido responsáveis pela emissão líquida de 136 ± 55 Pg de carbono para a atmosfera, tanto pela decomposição de restos vegetais quanto pela mineralização/oxidação da matéria orgânica do solo (MOS). Os estudos de avaliação de estoques de carbono (EC) em solos têm sido feitos com o objetivo de se conhecer o mais detalhadamente possível o tamanho do compartimento solo como armazenador de carbono, imprescindível no auxílio ao levantamento dos conteúdos de carbono orgânico seqüestrados nos ecossistemas terrestres, levando em conta que em escala geológica, as trocas de CO2 entre a atmosfera e os solos são rápidas. O conhecimento detalhado dos valores e da dinâmica deste carbono pode ajudar na determinação do comportamento de sumidouro ou fonte de dióxido de carbono, principal gás de efeito estufa, do solo. Não há ainda consenso quanto a isto nem conhecimento detalhado do papel particular das classes de solo, embora existam estimativas genéricas razoavelmente confiáveis do conteúdo de carbono estocado nos solos do mundo. Embora a situação esteja mudando rapidamente, houve até há pouco aceitação quase consensual de que os conteúdos de matéria orgânica do solo até os 20-30cm superficiais seriam responsáveis pela quase totalidade do carbono orgânico (CO) estocado neste compartimento. Uma série de trabalhos recentes, no entanto, tem demonstrado a reconsideração de que há conteúdos nada desprezíveis de carbono orgânico em camadas mais profundas do solo, demonstrando o quão estável é este carbono, por isso podendo vir a ser um reservatório potencialmente mais eficiente em seqüestrar CO2 por períodos de tempo mais longos do que fazem as camadas mais superficiais. (Continua)


Por que a OPEP odeia o etanol

23 Abril, 2008

Excelente entrevista com o Sr. Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior do Brasil, publicada no “Estado de SP” e reproduzida pelo Jornal da Ciência. Bom saber quais as estratégias utilizadas para demonizar o etanol. Vale conferir.


Composição química de rochas

16 Abril, 2008

Temos recebido muitas perguntas ultimamente sobre composição química de rochas, principalmente depois da publicação deste post. Comumente perguntam-nos algo do tipo “qual o elemento químico que forma o granito” ou outra rocha qualquer. É necessário que as coisas fiquem bem claras. Uma rocha é, em geral, um agregado de minerais. O granito, por exemplo, é majoritariamente formado dos minerais quartzo, feldspatos e micas. Um mineral, por sua vez, é uma substância, natural ou artificial, de composição química conhecida e característica, com estrutura atômica ordenada, geralmente na forma de cristais. Há minerais formados por apenas um elemento químico, como o ouro, mas a maioria dos minerais é de compostos multielementares. Há grupos de minerais “aparentados”, como os silicatos, formados a partir de inúmeras combinações físicas e químicas a partir de tetraedros de silício. Todos os minerais que compõem o granito por exemplo são silicatos: o quartzo e o feldspato são tectosilicatos e as micas são filossilicatos. A composição mineralógica das rochas ígneas dependerá basicamente da composição do magma a partir do qual se formaram. A composição das rochas metamórficas e sedimentares dependerá da composição das rochas ou sedimentos que lhes deram origem, lembrando que sedimentos são em geral resultado da intemperização (”decomposição”) de outras rochas ou da precipitação de compostos químicos. Dentro de determinado grupo de rochas, no entanto, há predominância ou maior presença de certos elementos químicos. As rochas ígneas ácidas são ricas em silício e relativamente pobres em ferro e magnésio, geralmente apresentando cor clara (leucocráticas) e são também chamadas rochas félsicas (de FELdspato e SÍlica), um exemplo é o próprio granito. Os solos originados destas rochas são geralmente mais amarelados. As rochas ditas básicas são menos ricas em silício e mais ricas em minerais contendo magnésio e ferro, por isso são também chamadas máficas, são rochas mais escuras (melanocráticas) e os solos delas originados costumam ser mais avermelhados. Um exemplo comum de rocha máfica é o basalto. Os minerais que compõem as rochas básicas são predominantemente silicatos: olivina, piroxênio, feldspatóides e feldspatos. As rochas metamórficas costumam ter composição semelhante à da rocha que lhe deu origem: o gnaisse é composto pelos mesmos minerais do granito. Dependendo do ambiente onde se dá o metamorfismo, no entanto, pode haver mudanças na composição em relação à rocha original. A composição mineralógica das rochas sedimentares, como já foi dito, depende da composição dos sedimentos. Rochas formadas a partir da litificação de areias de quartzo, como arenitos, são compostas principalmente por este mineral. Alguns arenitos, chamados de arcosianos, contêm também feldspatos. O calcário é formado da precipitação de carbonato de cálcio. A composição química dos solos, formados a partir do intemperismo químico e físico das rochas, é até certo ponto herdada da rocha parental.  


Mais um ano sem Stephen Jay Gould

15 Abril, 2008

Meu hobby mais absorvente antes de fazer pós-graduação era fazer pesquisas genealógicas, minha e dos outros. Adquiri este hábito em minha adolescência, conversando com meu avô materno sobre velhos parentes. Acho que este passatempo tem algo a ver com minha personalidade e escolhas profissionais: não gosto de “conhecer” nada sem lhe saber a origem, como surgiu e se desenvolveu, em quais condições. Tenho bem claro na mente o momento em que minha “vocação” para divulgador de ciência. Comecei o mestrado em Fitotecnia na UFV em 2000 e vinha ávido por conhecimento. A Biblioteca da universidade me pareceu, e parece, um paraíso. Sempre tive o hábito nerd de realmente explorar bibliotecas e livrarias e numa destas ocasiões descobri a revista Natural History, do American Museum of Natural History. Dei de cara com um artigo do Stephen Jay Gould. Já ouvira falar dele, não fazia muito tempo seu livro O polegar do panda fora lançado no Brasil, mas não conhecia o homem e a obra. Sem exagero, ali descobri que eu queria fazer Ciência. Muito depois é que descobri que os escritos de Jay Gould eram um tanto controversos entre os próprios biólogos, alguns achando que ele fazia tempestades em copos d’água, exagerava conflitos meramente por recurso retórico. Naquele encontro inicial no entanto eu só tinha olhos para a erudição e estilo único do cientista. Em seus textos entendi a importância crucial da utilização do método científico, como a adoção daquela maneira de se abordar os problemas tinha um impacto veramente filosófico na maneira de interpretar o mundo, quem foi esta grande personalidade chamada Darwin, maior entre os maiores, porque sua descoberta do mecanismo da evolução, a seleção natural, mudara a forma como entendemos a vida. Em seus textos vi que se podia não só gostar da Estatística, que no tempo eu enfrentava, como também usá-la, como ele, para se encontrar forças para vencer um câncer. Em 20 de maio de 2002, pouco tempo depois de publicar seu 300° artigo em sua coluna “This view of life” na Natural History, intitulado “I have landed”, pequena obra prima em que fala de suas origens familiares e a continuidade da vida, Stephen Jay Gould morreu aos sessenta anos em seu apartamento em Nova Iorque, cercado de familiares, livros e fósseis. O Geófagos é fruto de seus textos, e como bom filho lembra tristemente sua morte. Voltando ao tema da gênese de coisas e fatos, o título deste post me veio de uma lembrança de juventude. Quando fazia graduação em Areia, Paraíba, muitas vezes viajei de Campina Grande para aquela cidade. Em certo ponto do caminho havia um bar, cujo dono era admirador do cantor Altemar Dutra e por isso instalou uma placa, razoavelmente visível, na frente do estabelecimento, com os dizeres “Mais um ano sem Altemar Dutra”. Eu achava aquilo engraçado, porque era uma placa que não perderia nunca a atualidade.


Anel de Blogs Científicos

3 Abril, 2008

Acaba de ser inaugurado pela USP Ribeirão Preto o Laboratório de Divulgação Científica que hospeda o Anel de Blogs Científicos, cujo objetivo é agregar os blogueiros de ciência de língua portuguesa. O Geófagos teve a honra de ser um dos primeiros blogs convidados e já fazer parte do dito anel. Quem nos convidou foi o coordenador do projeto, Prof. Osame Kinouchi, também blogueiro no ótimo Semciência. Há algum tempo fazemos parte de algo parecido, o português Divulgar Ciência. Agora o fenômeno blog ganha a academia e, felizmente, com os blogs de ciência. O Anel de Blogs Científicos convida os blogueiros de ciência a se inscreverem mandando um e-mail para o Gustavo Miranda Forte (”Zedy”) no seguinte endereço: forte@fmrp.usp.br. Blogueiros de ciência, unamo-nos!


Nicolelis, Nordeste e Nobel

3 Abril, 2008

Como algum desejado leitor fiel deve ter percebido, temos mudado um pouco o “perfil” dos textos publicados no Geófagos. Além de meramente educativos, nossos posts têm agora procurado sugerir soluções. Semana passada, neste post, sugerimos como alternativa para o real avanço da região Nordeste o abandono de tentativas destinadas ao malfado, como a agropecuária em regiões sobre embasamento cristalino, e a conversão da região em pólo científico e tecnológico, como o que acontece embrionariamente na UFCG, em Campina Grande. Além de ter nascido e crescido na região, observando-a e meditando alternativas, tenho sido influenciado também pelas ações do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, fundador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, que, depois de atingir sucesso e prestígio profissionais internacionais, resolveu adotar o Nordeste como sede de seu Instituto e tem, como nós, a idéia de transformar a região em algo como o Vale do Silício, na Califórnia. O Jornal da Ciência acaba de publicar este texto sobre Nicolelis e sua caminhada irreversível para o Nobel. Não nos ufanemos demasiadamente no entanto: Nicolelis é brasileiro, formou-se e doutorou-se no Brasil, mas só teve condições de se mostrar ao mundo porque universidades americanas viram e gostaram de seu trabalho, a ponto de lhe criarem um laboratório próprio, com seu nome. O Brasil não lhe deu condições para aqui trabalhar e produzir o que tem produzido, mas, tenho certeza, as “autoridades” se apressarão em dividir os louros, quando vierem. E continuarão sem concordar que o país não precisa mais de políticos, mas de cientistas.


Guiana vende serviços ambientais e conserva floresta

2 Abril, 2008

Há poucos dias o Jornal da Ciência publicou esta notícia anunciando a venda pelo governo da Guiana de serviços ambientais a um fundo de capitais britânico. Que serviços ambientais? Basicamente, os benefícios ao meio ambiente de uma floresta mantida intacta. Em dezembro publiquei aqui no Geófagos o post Como pagar ao meio ambiente?, infelizmente muito pouco lido, introduzindo aos leitores como seria a prestação de serviços ambientais e sua valoração. Vê-se agora um país vendendo os serviços de 405000 hectares de mata, entre os quais “regulação de chuvas, armazenagem de carbono e regulação do clima”. Os que não conhecem a realidade da pequena agricultura brasileira descapitalizada, criticam, a partir de seus escritórios com ar condicionado, a derrubada de matas para fazer carvão por agricultores ignorantes e de pequena visão. Mas a visão tem que ser pequena e de curto prazo: de que adianta salvar as florestas para o futuro e morrer de fome hoje? É inútil tentar-se salvar o mundo apelando para as consciências, principalmente quando estas estão famintas. O agricultor em geral não derruba matas por maldade, mas por necessidade. A forma mais eficaz de se evitar isto é pagando de forma justa para que eles mantenham a vegetação de pé, pagando os serviços ambientais prestado pelas matas intocadas. E não só das matas, o solo acumula muito mais carbono que a vegetação e isto é um grande e potencialmente caro serviço, deveria também ser pago. Aliás, isto seria uma alternativa interessante para auxiliar a conservação da caatinga e do cerrado, a primeira ameaçada pela completa ausência de fonte de renda de agricultores do semi-árido, o segundo pela voracidade entomológica de sojicultores et allii. Há regiões de difícil agricultura que poderiam ser usadas extensivamente para isso. A Zona da Mata mineira, por exemplo, é uma região extremamente montanhosa e de solos nutricionalmente pobres. As áreas mais produtivas são os terraços nos vales. Mesmo assim, os morros estão quase completamente desmatados para a formação de pastagens, aliás muito degradadas, e a madeira restante é em geral usada para fazer carvão. Os topos dos morros se prestam à regeneração das matas e prestariam um serviço ambiental essencial para a região: a captura e manutenção da água que alimenta as nascentes de rios da região. É necessário buscar-se alternativas ousadas para a resolução dos grandes problemas ambientais de nosso tempo e usar o realismo monetarista como aliado, revertendo o papel do dinheiro como grande causador das tragédias mundiais modernas.


Enfim, Bráulio Tavares bloga

1 Abril, 2008

Bráulio Tavares é para mim um ícone e um ídolo. Quem não o conhece não conhece ficção científica brasileira. Encontrei este nome pela primeira vez na longínqua década de 90 do passado século, quando lia suas resenhas na tristemente extinta versão brasileira da Asimov’s Science Fiction, que se chamou por aqui Isaac Asimov Magazine, publicada por cerca de dois anos pela Record. Descobri depois que o cara era paraibano, como eu, além de ter origens familiares em Monteiro, como eu! E claro, escrevia bem, como eu não. Seu livro A Espinha Dorsal da Memória ganhou Prémio Caminho de Ficção Científica, de Portugal, até onde sei o único brasileiro que conseguiu esta façanha. Durante meu período regionalista-bairrista-nacionalista fiquei fascinado por seu cordel “Nordeste Independente”, se não me engano em parceria com Ivanildo Vila Nova. Depois perdi-lhe a pista, até surgir a internet, vinda direto do céu, e encontrá-lo novamente pelo cibermundo, embora não tão abundantemente quanto gostaria. Há algumas entrevistas, uma coluna diária no Jornal da Paraíba e recentemente encontrei uma coluna que ele escreve para o site de literatura e arte Cronópios. Uma amostra deliciosa da poesia de Bráulio Tavares pode ser vista aqui, perdida no meio do ciberuniverso. Além de escritor, Bráulio Tavares é também compositor. Agora, finalmente, o homem resolve publicar em um blog, Mundo Fantasmo, todos os seus textos publicados no JPB. Acho que talvez seja uma possibilidade para um contato mais próximo com o artista. Espero. De toda forma o blog pode ser acessado a partir daqui e na minha lista de blogs. Viva a web 2.0!


Vanzolini e os problemas insolúveis

31 Março, 2008

Há momentos em que uma pessoa que pensa com seriedade os problemas contemporâneos chega a conclusões incômodas e se vê instado a proferir palavras por vezes antipáticas. Foi algo desta natureza que me ocorreu semana passada quando escrevi o post Soluções para problemas insolúveis I. Preocupei-me, antes de escrever, com a possibilidade de ser demasiadamente catastrofista e talvez voz única em minhas opiniões. Feliz, encontrei, a partir do blog Caapora, esta entrevista com o eminente zoólogo Paulo Emílio Vanzolini, a quem admiro muito desde o período que trabalhei, durante o doutorado, com paleoclimas. Na entrevista há trechos muito parecidos com os que escrevi. Comparem. Vanzolini: “A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa. Enquanto a população crescer, você não vai negar comida”, Geófagos:”a Ciência do Solo tem sido desafiada a desenvolver técnicas de manejo dos solos que possibilitem produzir alimentos, sustentavelmente, para bilhões de pessoas, perto estamos dos 10 bilhões. Ora, o pressuposto de que estes dois desafios sejam igualmente factíveis pode ser falso: talvez não seja possível uma solução técnica para ao mesmo tempo melhorar a qualidade de vida de uma população crescente e manter, ou também melhorar, as condições ambientais do mundo”. A entrevista é muito boa e merece ser lida.


Intemperismo químico de rochas e salinização de solos do semi-árido

31 Março, 2008

Em certo trecho no último post comentei sobre a inadequação do uso de águas subterrâneas na irrigação em solos do semi-árido desenvolvidos sobre rochas que chamei de cristalinas. Este assunto, parece-me, merece um pouco mais de explicação. As rochas do mundo dividem-se em três grandes grupos: rochas ígneas, rochas sedimentares e rochas metamórficas. As rochas ígneas são aquelas que se originam do resfriamento do magma, quer no interior de câmaras magmáticas, quer no ambiente externo, como exemplos de rochas ígneas pode-se citar os granitos e os basaltos. Rochas sedimentares são aquelas originadas a partir da litificação (”petrificação”) de sedimentos. Os sedimentos podem originar-se da intemperização de outras rochas, da precipitação de compostos, como o carbonato de cálcio, ou de restos de organismos vivos. Os exemplos são o arenito, o calcário e os diatomitos. As rochas metamórficas, por sua vez, formam-se em ambientes de elevadas pressão e temperatura. As metamórficas podem ter origem tanto em rochas ígneas quanto em sedimentares: o gnaisse pode vir tanto de um granito quanto de um argilito. O que eu chamei de rochas cristalinas, muito comuns no semi-árido nordestino, são basicamente rochas ígneas e metamórficas dos grupos do granito e do gnaisse. Estes materiais são compostos predominantemente dos minerais quartzo, micas (biotita e muscovita) e vários feldspatos. Assim como já foi diversas vezes discutido aqui, a ação dos agentes intempéricos (água, vento, temperatura, organismos vivos…) causa a decomposição da rocha, o intemperismo. O intemperismo físico é resumidamente a quebra da rocha em pedaços menores. O intemperismo químico abrange tanto a perda de elementos químicos como a formação de minerais novos, chamados minerais secundários, em contraste com os minerais primários que compunham as rochas. Em regiões úmidas, a água, principal agente intemperizador químico, dissolve e carrega os elementos químicos em profundidade e superficialmente. É por isso que solos de regiões quentes e úmidas são nutricionalmente pobres. Em regiões semi-áridas, os solos costumam ser mais férteis porque o intemperismo tanto de rochas quanto de solos é muito menos intenso. Por esta mesma razão, as águas subterrâneas das áreas sobre material geológico cristalino têm teores de sais (medidos em termos de condutividade elétrica) mais alto. Além de o intemperismo ser incipiente, a alta evaporação muitas vezes faz com que haja ascensão de água subsuperficial por um processo chamado capilaridade. Esta água é rica em sais e, quando evapora, deixa o excesso de sal na superfície dos solos. Quando se irrigam as culturas com água de alta salinidade, é também a evaporação seguida de precipitação dos sais nos solos que causam a salinização. Além dos efeitos deletérios para as espécies vegetais, o excesso de sais pode comprometer também a estrutura dos solos, por causar dispersão de argilas e colóides orgânicos, destruindo os agregados, diminuindo a porosidade, aumentando a densidade do solo e agravando o problema já grave da erosão ao diminuir a infiltração de água nos solos. Assim, tanto a pobreza nutricional de solos de regiões tropicais úmidas, a profundidade do saprolito nestas áreas, quanto a riqueza nutricional de alguns solos do semi-árido e sua predisposição à salinização, dependem da intensidade da ação do intemperismo.