Cemitério geológico de carbono

25 Janeiro, 2008

Com as constantes preocupações em diminuir ou neutralizar as emissões de CO2 (dióxido de carbono, principal gás causador do efeito estufa) ou descobrir alternativas que reduzam sua concetração na atmosfera, idéias miraculosas têm sido propostas. Desde espelhos para refletir os radiações solares até “aspersão” de anions sulfato (SO42-) na atmosfera (apesar de esta aspersão ter o potencial de causar o problema das chuvas ácidas resultante da combinação do SO42- e do vapor d’água, como disse um dos cientistas responsáveis pela proposta “não se pode fazer omelete sem quebrar os ovos”). Porém alternativas mais simples e de caráter não sensacionalista estão sempre batendo à nossa porta. Há mais de duas décadas as empresas exploradoras de petróleo utilizam a técnica de injeção de CO2 em alguns de seus poços para retirar os últimos resquícios de petróleo do subsolo. Porém, como a emissão de CO2 a partir da queima de combustíveis fósseis figura-se entre os principais “alvos” a serem combatidos quando se trata de mudanças climaticas globais, essa tecnica ganhou uma nova função- sequestrar ou melhor enterrar carbono. Conforme estimativas do IPCC, Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima, será necessário sumir com mais de 25 bilhões de toneladas de CO2 até o ano de 2050 e tal tecnologia tem o potencial de contribuir com pelo menos 21 % desse valor durante esse período. Tal fato, nos induz a pensar no potencial do Brasil de se tornar um grande “cemitério” geológico de carbono. Para se ter uma idéia, conforme estimativas de João Marcelo Ketzer coordenador do Cepac (Centro de Excelência em Pesquisa sobre Armazenamento de Carbono), o Brasil, sozinho, tem capacidade para estocar o equivalente ao que o planeta emite em 80 anos. Áreas usadas na exração de carvão mineral e os aquiferos salinos, cuja água é impropria para o consumo, também poderiam servir como região de estoque. Pensando nessas possibilidades, a PETROBRAS inicia a partir desse ano testes de injeção de carbono em larga escala na Bacia de Santos (sob o mar) e na Bahia (em terra), com estimativas de antingir um patamar de até 10 milhões toneladas por ano até 2014. Se a meta for atingida, será um dos maiores projetos de seqüestro geológico do mundo. Hoje, em grande escala, existem apenas três Se a meta for atingida, será um dos maiores projetos de seqüestro geológico do mundo escreveu Eduardo Geraque para o jornal folha de São Paulo. As principais limitações da tecnologia ficam a cargo- 1. dos riscos de vazamento durante o trasnporte do CO2 que seria aprisionado no processo da captura ou vazamento do próprio reservatório acarretando em passivo ambiental; 2. custos elevados!? Mas essas empresas já não ganharam uma avalanche de dinheiro as custas da exploração da Natureza porque não agora oferecer algo em troca…


Situação da pesquisa científica no Brasil

24 Janeiro, 2008

A revista Pesquisa FAPESP acaba de publicar em seu último número uma excepcional entrevista com a Professora Léa Velho, do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências da Unicamp e, segundo a revista, “uma das principais referências nacionais em sociologia da ciência”. Na entrevista, a pesquisadora faz relevantes considerações sobre o crescimento do número de publicações, seu impacto internacional, a utilização do número de citações como avaliação da qualidade do pesquisador, a formação de doutores e falta de emprego no Brasil e conseqüente migração de cérebros. Novamente, excelente e esclarecedora entrevista, disponível gratuitamente on-line. Como antídoto para o post anterior, é um refrigério ver o que tem para dizer uma cabeça pensante.


Criacionismo no governo brasileiro

24 Janeiro, 2008

Há alguns dias escrevi este post sobre a inexistência de efeitos maléficos de culturas transgênicas sobre insetos polinizadores. Há lá um trecho que expressa bem minhas idéias sobre uma parte considerável da “intelectualidade” de esquerda brasileira, cito-me: “Assim, revivendo a tradição inquisitorial, uma porção da população brasileira que gosto de chamar de dogmáticos verdes não só se opõe ao plantio de espécies transgênicas, como se opõe mesmo à pesquisa com organismos transgênicos, como se nosso depauperado país pudesse se dar ao luxo de deixar de produzir conhecimento científico (é óbvio que este temor e aversão à ciência é típica de fundamentalistas religiosos)”. Uma das grandes opositoras à pesquisa com organismos geneticamente modificados no Brasil tem sido a ministra do meio-ambiente, Sra. Marina Silva. Agora, desgostoso mas de forma alguma surpreso descubro, através dos blogs Ciência em Dia e Idéias antigas, que a Senhora Ministra é uma ardente defensora da superstição conhecida como criacionismo e da idéia de que esta idiotice seja ensinada nas escolas já que, segundo sua gabaritada opinião, a seleção natural não é competente para explicar a natureza. Fica bem claro quem são e o que pensam os dogmáticos verdes, são dogmáticos mesmo, fundamentalistas para os quais de nada importam dados científicos e por isso mesmo são até contra a pesquisa científica. E há quem se surpreenda pela qualidade da educação brasileira. Já disse e repito: o Brasil e o mundo necessitam desesperadamente de cientistas, não de políticos.  


Enfim, doutor…E agora?

23 Janeiro, 2008

Finalmente, defendi minha tese de doutorado última sexta-feira, dia 18 de janeiro. A defesa foi sem dúvida a parte mais tranqüila de todo o curso, embora esperada com enorme ansiedade. Enfim, sou doutor em Solos e Nutrição de Plantas, mas continuo sem emprego, o que é angustiante, já que tenho filhos a cuidar. Destas coisas que creio só acontecerem no Brasil, até já passei em um concurso, mas a empresa federal de pesquisa para a qual fui aprovado não me chama, apesar de haver vagas e de o governo insistir que deseja ver os pesquisadores empregados e produzindo, como entender isto? De toda forma tenho agora um título, antes nada tinha, parto agora para a fase de correção da tese, escrivinhação de artigos e preparação de projetos de pós-doutorado, saída cada vez mais comum para os recém-doutores desempregados. Ano novo, vida nova.


No campo

15 Janeiro, 2008

Amanhã eu e os amigos Elton Valente, contribuidor do Geófagos, Guilherme Resende, pedo-geo-arqueólogo, e Marcus Locatelli, orquidófilo e orquidólogo, estaremos às margens do Rio Piranga, no município de Guaraciaba-MG, coletando amostras botânicas em um resquício de Mata Atlântica pertencente a meu sogro. Talvez à tarde consiga postar alguma coisa, mas o mais certo é quinta-feira. Até lá, continuem lendo e comentando o Geófagos.


Geofagia, malária, argilas e a origem da vida

15 Janeiro, 2008

Através do blog Terra Sigillata, neste excelente post, cheguei a este interessante artigo: “Geophagy: soil consumption enhances the bioactivities of plants eaten by chimpanzees”, escrito por uma equipe do Muséum National d’Histoire Naturelle, da França, encabeçada pela pesquisadora Noémie Klein. A equipe observou a ingestão de solo em chimpanzés do Kibale National Park, em Uganda, depois de se alimentarem de plantas com suposta ação contra a malária e, após ensaios, concluiram que a presença do solo exacerbou a ação anti-malária dos extratos vegetais. A análise mineralógica das amostras de solo utilizadas tanto pelos chimpanzés quanto por um curandeiro de uma aldeia próxima ao parque revelou que o mineral dominante era o argilomineral conhecido como caulinita, extremamente comum em solos de regiões tropicais, como África e Brasil. Pelo que é descrito no artigo, suponho que ambos os primatas, chimpanzés e homens, coletam solo do horizonte B, em geral mais rico em argilas. É interessante notar que a caulinita faz parte da composição de uma série de medicamentos utilizados no combate de problemas digestivos e para curar diarréias, mas o efeito de exacerbar a ação anti-malária de extratos vegetais não tinha sido antes observada. Os autores levantam algumas hipóteses para a ação da argila, sem no entanto entrar em detalhes quanto à química dos processos porventura atuantes. Eu tenho uma hipótese e o interessante é que o mecanismo que provavelmente promoveu a ação anti-malária é o mesmo que pode ter possibilitado a formação das primeiras moléculas de RNA que depois possibilitariam a origem da vida. Como já falei aqui no Geófagos diversas vezes e repito, os solos têm cargas e que produz estas cargas são principalmente as partículas de argila, como a caulinita. A principal função destas cargas de importância para nossa vida quotidiana é a retenção (adsorção) dos nutrientes minerais para o crescimento das plantas, inclusiva daquelas que finalmente nos alimentarão. Mas na verdade estas cargas têm a capacidade de adsorver qualquer espécie iônica presente com sinal de carga contrário. Embora a maior parte dos minerais de argila e a matéria orgânica exponham cargas negativas na faixa de pH do solo (o pH pode influenciar muito o sinal das cargas expostas), alguns minerais do solo, entre eles a caulinita, podem expor também cargas de sinal positivo. As moléculas orgânicas presentes no solo ou na água, quando dissociadas tendem a expor cargas negativas, ou seja, tendem a ser aniônicas, de forma que são preferencialmente adsorvidas por minerais com carga positiva, como a caulinita. Imaginemos agora que as espécies com função medicinal ingeridas por chimpanzés contenham compostos com potencial anti-malária ou anti qualquer coisa, mas estes compostos têm antes que reagir para poder atuar medicinalmente. Para reagir eles têm antes que se aproximar, e é aí que entra a caulinita: ao adsorver os compostos, ela os aproxima, permitindo que reajam. Na ausência da argila, esta reação seria muito mais difícil, pois dependeria do encontro casual dos compostos. Mas onde entra a origem da vida? Segundo alguns biólogos e geoquímicos, na sopa orgânica inicial pré-vida, as moléculas precursoras da vida estavam presentes, mas não as macromoléculas essenciais tanto à transmissão de informação genética, DNA e RNA, como aquelas responsáveis pelo funcionamento dos organismos, as proteínas. Recentemente descobriu-se que o RNA pode agir tanto como portador das informações genéticas quanto como enzimas, que são proteínas, então alguns supõe que a vida surgiu em um mundo de RNA. Alguns pesquisadores descobriram também que alguns minerais de argila, principalmente um chamado montmorillonita, tem a capacidade de catalizar a formação de moléculas de RNA. Como? Exatamente, aproximando moléculas menores (monômeros) pela adsorção e permitindo que reajam formando moléculas maiores (polímeros), que podem ter sido precursores de toda a vida. Ser um geófago ganha desta forma todo um novo significado.


Post sobre mudanças climáticas

14 Janeiro, 2008

Excelente post sobre as bases científicas das previsões sobre mudanças climáticas globais no blog Chaotic Utopia. Para quem não tem acesso a periódicos científicos, é uma boa introdução, com uma pitada de filosofia da ciência.


Estatística experimental na internet

14 Janeiro, 2008

Se bem usada e explorada, não há em minha opinião melhor ferramenta para a divulgação do conhecimento do que a internet. Acabo de descobrir uma página disponibilizando em PDF os trabalhos originais do genial matemático, estatístico e geneticista R. A. Fisher. Qualquer estudante que tenha feito experimentos científicos está familiarizado com as ferramentas desenvolvidas ou melhoradas por Fisher, como a análise de variância ou os próprios delineamentos experimentais. Considerado um gênio, Fisher foi um dos responsáveis também pelo desenvolvimento da genética populacional. Ótima descoberta.


Ecologia de paisagens e a Serra do Cipó

14 Janeiro, 2008

Mais um excelente post convidado do amigo Elton Valente. Abaixo ele discorre sobre um assunto de já tratei aqui: o desenvolvimento de vegetação exuberante, como a floresta amazônica, sobre solos tropicais quimicamente pobres, como os Latossolos. No caso da área da tese do Elton ocorrem coisas mais extremas, matas ombrófilas (sombreadas) sobre areia quase pura. Sobre a área da Serra do Cipó em que o Valente desenvolve sua tese, também já há algo aqui no Geófagos. Boa leitura.

“Hoje o assunto destas linhas não são os meus desabafos “sócio-político-ambientais” (ufa!) - Aliás, quero registrar o fato de que o meu colega e amigo Ítalo Rocha tem sido bastante generoso comigo, permitindo-me publicá-los aqui no Geófagos. Desta vez quero falar da minha pesquisa de doutorado. Em linhas gerais, o projeto consiste em estudar as relações entre o solo e a vegetação em alguns geoambientes da Serra do Cipó, em Santana do Riacho, nas proximidades de Belo Horizonte.
Intuitivamente nós associamos a uma vegetação robusta, frondosa, níveis elevados de fertilidade do solo. Quando se trata da produtividade das culturas comercias, esta relação é verdadeira, portanto corrigimos as “deficiências” do sistema. Em condições naturais não é bem assim, a natureza sempre nos reserva boas surpresas. Tanto nos trópicos quanto em regiões temperadas, às vezes, sobre solos ricos quimicamente, pode se encontrar uma vegetação de baixa biomassa, ou subarbustiva, até mesmo herbácea, pois outros fatores podem determinar tal condição, por exemplo, a profundidade do perfil do solo, a disponibilidade de água, a temperatura local, ou uma associação destes fatores, entre outros. Por outro lado, nestes “tristes trópicos” (como dizia Claude Lévi-Strauss), é quase uma regra encontrar solos pobres, como os Latossolos, sustentando vegetação exuberante. O fato é que, mais que isso, não é raro encontrar uma vegetação igualmente frondosa assentada sobre solos muitíssimo pobres quimicamente (abaixo da linha da pobreza, eu diria em tom de jocosidade). É exatamente isto que encontramos nos trabalhos de campo de minha pesquisa: solos extremamente pobres sustentando uma vegetação de fitofisionomia ombrófila, bem desenvolvida, frondosa, florísticamente associada à Mata Atlântica. E, num aparente paradoxo, os solos são tão pobres quimicamente que os poucos nutrientes que ali se encontram estão restritos à manta orgânica e ao horizonte A. A rocha de origem do solo não os fornece. Nos horizontes sub-superficiais, em alguns casos, elementos como P, Ca e Mg apresentam valores nulos ou traços.
Tenho suscitado muitas dúvidas e questões sobre isto, o que é ótimo para o trabalho. Por ora não posso comentá-las aqui. Mas o fato é que ainda conhecemos pouco sobre Ecologia de Paisagens. É neste ramo da ciência que, no fim das contas e a bem da verdade, está inserido o meu trabalho (estou no Departamento de Solos - e quero continuar aqui). Acho que em função dos problemas ambientais graves que estamos vivenciando e que ainda estão por vir, muitos pesquisadores das ciências naturais, como Ciência do Solo e Biologia entre outras, estão deixando “a linha dos especialistas”, onde o indivíduo “sabe muito de pouco”, e seguindo a trilha dos antigos naturalistas, aqueles que sabiam um pouco de cada coisa para entender o todo. Como dizia o sábio Aristóteles: “o todo é muito maior do que a simples soma de suas partes”. Na estrutura da paisagem, a Biocenose e o Biótopo se entrelaçam de forma indissociável (isto já soa como um lugar comum) formando o Ecossistema, ou seja, formando um conjunto muito complexo, mas de uma lógica espantosamente simples, que se traduz no equilíbrio dinâmico dos elementos naturais, em sistemas abertos por natureza. Pensando assim é que talvez seja possível encontrar um caminho para elucidar, pelo menos em parte, aquelas minhas questões sobre a Serra do Rio Cipó.

Elton L. Valente”


A mídia, o aquecimento global e as frieiras

11 Janeiro, 2008

Acabo de ler um dos melhores posts até hoje demonstrando o despreparo absoluto de boa parte da mídia para comunicar ciência. O texto é do blogueiro Widson Porto Reis, do excelente O Dragão da Garagem, e deve ser lido por qualquer um desejando imunizar-se contra os absurdos por aí escritos sobre o aquecimento global. O autor destrinça um artigo tolo de uma revista mineira em que a autora, entre outras pérolas, associa o aquecimento global com o aumento da incidência de micoses nos pés e com doenças de inverno…no Brasil! É necessário ler-se isto.


Evolução e algoritmos

10 Janeiro, 2008

Encontrei este excelente pequeno texto sobre de que forma os genes agem na formação de um organismo ecomo a evolução pode levar o “algoritmo genético” controlador da morfogênese a ser deselegante mas eficiente. O texto é do PZ Myers, autor do blog Pharyngula, o blog de divulgação científica mais lido do mundo. O texto mostra ainda como esta deselegância é mais um argumento contra a hipótese do design inteligente. Em tempo, o artigo está em inglês.


Eppur si muove

10 Janeiro, 2008

No Brasil, e sei que também em outras partes, por amor a filiações ideológicas costuma-se inúmeras vezes ignorar os fatos em favor de dogmas, quer sejam religiosos, quer sejam políticos ou de outra natureza. Gosto de pensar que contra fatos não há argumentos, mas os dogmáticos não pensam assim: contra qualquer coisa, há o que eles querem que seja verdade. Assim, revivendo a tradição inquisitorial, uma porção da população brasileira que gosto de chamar de dogmáticos verdes não só se opõe ao plantio de espécies transgênicas, como se opõe mesmo à pesquisa com organismos transgênicos, como se nosso depauperado país pudesse se dar ao luxo de deixar de produzir conhecimento científico (é óbvio que este temor e aversão à ciência é típica de fundamentalistas religiosos). Para combater extremistas, no entanto, nada melhor do que fatos. Acaba de ser publicado no periódico on-line de acesso livre PLoS ONE o artigo A Meta-Analysis of Effects of Bt Crops on Honey Bees (Hymenoptera: Apidae) em que os autores demonstram a inexistência de efeitos negativos de culturas transgênicas contendo proteínas Bt Cry, utilizadas em espécies geneticamente modificadas visando o controle de insetos das ordens Lepidoptera (borboletas e mariposas) e Coleoptera (besouros), em abelhas. Há uma grande importância nestes resultados, visto que as abelhas são as mais importantes polinizadoras de um grande número de espécies vegetais, agrícolas ou não. Os pesquisadores responsáveis pelo trabalho mostraram não haver efeitos das proteínas transgênicas na sobrevivência de larvas e adultos de abelhas. Eppur si muove.


Máquina de fazer petróleo

9 Janeiro, 2008

O título é meio estranho e na blogosfera internacional a notícia não é mais tão nova. Pesquisadores dos Sandia National Laboratories, no estado do Novo México, EUA, anunciaram a criação de uma máquina que “essencialmente reverte o processo de combustão” de material orgânico como combustíveis fósseis, por exemplo, chamada de Sunlight to Petrol, ou S2P. O interessante do projeto é que a fonte de energia para isso é a própria luz do sol. Ou seja, é uma máquina que imita o que fazem as plantas, convertem CO2, um gás, em material orgânico, utilizando como fonte de energia a radiação solar. Entendamos um pouco a química do processo, tanto na máquina como nas plantas. No CO2 (dióxido de carbono), a valência do elemento carbono é de +4, ou seja, o elemento tem a tendência de perder 4 elétrons, cuja carga é negativa, ficando com um excesso de 4 prótons, cuja carga é positiva; estas cargas positivas são neutralizadas por dois átomos de oxigênio, que têm cada um a tendência a ganhar dois elétrons. Diz-se então que o carbono foi oxidado, por ter perdido elétrons. Os organismos vivos são compostos majoritariamente de carbono, só que na forma reduzida, ou seja, com valência entre 0 e -4, ou seja, nos seres vivos, e em toda a matéria orgânica originada deles, inclusive os combustíveis fósseis, como o petróleo, o comportamento do carbono é o inverso do observado no díoxido de carbono, na matéria orgânica o carbono tende a ganhar elétrons, reduzindo-se. No caso das plantas, quem doa elétrons para que o CO2 seja reduzido é a água, daí a famosa équação da fotossíntese:

6CO2 + 12H2O + fótons → C6H12O6 + 6O2 + 6H2O, em que os fótons (”partículas” que compõem toda a radiação eletromagnética como a luz do sol) garantem a energia responsável por retirar dois elétrons de cada oxigênio da água. No caso da máquina S2P, a substância responsável por doar elétrons para a redução do CO2 é o CoFe2O4 (cobalt ferrite, talvez algo como ferrita de cobalto). Na verdade, os anéis deste composto são aquecidos pela luz solar, há perda de oxigênios com redução (ganho de elétrons) do ferro, depois os anéis são resfriados, o ferro é novamente oxidado, doando elétrons para o CO2, o qual é então reduzido. Interessante e inteligente, e uma possível alternativa para se fazer combustível, como gasolina, sem o uso de combustíveis fósseis, visando reduzir os efeitos das mudanças climáticas globais. O mundo não precisa de políticos, precisa de cientistas.


Enfim, tese

8 Janeiro, 2008

Afinal, terminei de escrever minha tese de doutorado e marquei a bendita defesa para próxima sexta-feira, dia 18. Fruto de muito esforço e uma dose cavalar de sacrifícios, esta minha dileta filha viu enfim a luz do mundo. Embora não possa ainda comentar sobre os resultados obtidos, devido à política em geral adotada pelos periódicos científicos de publicarem apenas resultados inéditos, e não sei se resultados comentados em blogs são considerados, posso proclamar ao mundo seu pomposo, embora provisório, título: “Ambiente físico, estoque de carbono de solos e vegetação e termodegradação da matéria orgânica de solos da Área de Proteção Ambiental Estadual Cachoeira das Andorinhas, Ouro Preto, Minas Gerais”, em que além de descrever a geologia, geomorfologia e os solos da dita APA, quantifico os estoques de carbono, principalmente em solos, e analiso a resistência desta matéria orgânica estocada ao calor. Embora, como já expliquei, não possa divulgar detalhadamente meus resultados por enquanto, posso adiantar que há grande influência no tipo de solo tanto sobre os conteúdos de carbono orgânico estocados quanto sobre sua estabilidade. Solos tropicais intemperizados profundos parecem ser bons estocadores de carbono, principalmente nos horizontes mais profundos. Esta matéria orgânica profunda é reconhecidamente estável, de forma que estes solos são uma boa aposta como seqüestradores de carbono no crescente mercado de venda de créditos de carbono visando compensar as emissões de CO2 por países desenvolvidos. Foi um trabalho árduo, mas prazeroso. Depois de dia 18 de janeiro poderei dizer se foi considerado bom o bastante para me fazer merecedor de um título de doutor em ciências.


Aquecimento global, ciência e bom senso

4 Janeiro, 2008

O amigo Elton Valente, colega de doutorado e darwinista de primeira hora, tem opiniões muito próprias sobre uma série de assuntos, inclusive aquecimento global. De vez em quando manda-me uns textos interessantes, como o que agora reproduzirei no Geófagos. Embora eu ache que as evidências da origem humana do aquecimento global são muito fortes, o pensamento crítico e a opinião dissidente são importantíssimos para se formar um quadro sem viés, não preconceituoso dos fatos. Esta, na verdade, é a crucial vantagem do pensamento científico legítimo sobre as outras formas de interpretação do mundo: a inexistência de certezas inquestionáveis, os malditos dogmas. A seguir, as palavras do Elton:

“Em relação às questões ambientais (ou quaisquer outras), este irrelevante cronista que vos escreve já afirmou aqui no Geófagos que é preciso questionar, duvidar e querer saber. É preciso ser muito cético com a Mídia e com a Moda. Ambas são muito volúveis por natureza.
Existem duas coisas fundamentais para o desenvolvimento do mundo e da civilização: boa ciência e bom senso! Mas nestes tempos em que as forças políticas, econômicas e sociais do mundo estão “reorganizadas” e divididas novamente em dois blocos, de um lado o capitalismo globalizado e do outro a esquerda radical agarrada ao ambientalismo como “nova bandeira” anti-globalização (pois o seu comunismo-marxismo foi desacreditado, sem Sartre, sem o “jovem” Fidel, sem “O Muro de Berlin” e com os seus antigos ideais perdidos), a discussão tomou outros rumos, mas continua igualmente ideológica, radical e sem bases concretas.
É certo que é preciso rever o crescimento econômico desenfreado, que utiliza como principal fonte de energia os combustíveis fósseis e avança sobre os recursos naturais de forma quase irracional. Mas também é certo apontar o dedo em riste para os neo-medievalistas que querem atrasar, quando não banir, o desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
O nosso colega e amigo Ítalo Rocha, idealizador do Geófagos, tem nos lembrado sempre, entre outras coisas, do importante papel do solo no seqüestro de carbono e da questão verdadeiramente científica a respeito do aquecimento global.
A mídia é em geral catastrofista, pois isso rende público e dividendos. Eles, portanto, não mostram que os gases do efeito estufa, e não apenas o CO2, mas o conjunto desses gases corresponde a apenas uma das variáveis da equação. Voluntariamente ignoram que, ao longo da evolução do planeta Terra, variáveis como a atividade solar, o vulcanismo e o vapor d’água, entre outras, foram e são extremamente importantes nos ciclos de aquecimento e resfriamento do planeta. E estes ciclos já foram em outras eras muito mais extremos do que no momento presente. Ou seja, estudos que se pretendam sérios não devem descartar os efeitos da emissão de CO2 antropogênico e de outros gases como agentes do efeito estufa, mas também devem considerar outros fatores, como por exemplo, a atividade solar, que parece ser uma das principais variáveis nessa complexa equação. Uma análise imparcial e criteriosa do problema sugere que, com base nas informações que se tem até agora, é sensato ter cautela antes de fazer previsões e afirmações categóricas sobre mudanças climáticas de longo prazo.
Por outro lado, é sensato também ter moderação no uso dos recursos naturais, investir em educação de qualidade, bem como em ciência e tecnologia para ricos e pobres de todos os continentes. Só assim teremos sucesso na substituição de velhas tecnologias por novas, mais eficientes e menos poluidoras.
O problema é que o capitalismo globalizado vai continuar drenando os recursos naturais do mundo ao seu modo e vai fazer de tudo para manter os países em desenvolvimento “em desenvolvimento”, ou seja, pobres. Do outro lado, as esquerdas radicais vão continuar buscando a qualquer preço uma bandeira ideológica para justificar a sua “luta contra o capitalismo”. Nesta peleja irracional, a bola da vez é o ambientalismo. Além das meias-verdades, muita besteira tem sido dita e praticada de ambos os lados a esse respeito. Sabendo-se que nas questões ambientais as variáveis são muitas, cada um ajusta o modelo como melhor lhe convém. Nesse embate, em meio à barulheira própria de quem pretende impor sua razão no grito, fazem calar a voz de quem deveria falar primeiro: a ciência e o bom senso.

Elton L. Valente