Sustentabilidade da agricultura no semi-árido brasileiro I
26 Abril, 2007O semi-árido Nordestino, conhecido também como Polígono das Secas, abrange uma área de 1.150.662km2, correspondendo a 74,30% da área total da Região Nordeste e 13,52% do Brasil, cobrindo áreas dos estados do Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia além do norte de Minas Gerais na Região Sudeste.
A definição de semi-aridez, geralmente, é feita usando-se o índice de aridez da UNESCO para se caracterizar zonas bioclimáticas: P/ETP onde P é a precipitação e ETP é a evapotranspiração (soma entre o que é evaporado pelo solo e corpos d’água e o que é transpirado pelos vegetais) potencial calculada pelo método de Penman. De acordo com os valores deste índice, são consideradas zonas semi-áridas aquelas em que a razão P:ETP situa-se entre 0,20 e 0,50. As médias de precipitação no semi-árido variam de 300 a 800mm.ano-1 e as médias de evapotranspiração potencial variam de 1500 a 2000mm/ano, sendo o balanço hidrológico da região distribuído desta forma: (a) 70% da precipitação sendo evaporados; (b) 20% evapotranspirados, principalmente pela vegetação da caatinga; (c) 10% para o escoamento superficial.
Por que se apresenta tão repetidamente a questão da sustentabilidade da agricultura no semi-árido nordestino? Na verdade, deixando um pouco o provincianismo de lado, parece que a preocupação quanto à sustentabilidade de práticas agrícolas em ambientes semi-áridos, atualmente, não é exclusividade brasileira, muito pelo contrário, tem-se a impressão de que o Brasil é dos que menos se ocupam desta questão.
Conhecendo-se as condições adversas em termos ambientais predominantes nestes ecossistemas, talvez fosse mais pertinente perguntar-se por que praticar agricultura em tais regiões, quando lugares menos adversos estão disponíveis. Entretanto, áreas agricultáveis em regiões de clima ameno, solos férteis e produtivos e com água em boas quantidade e qualidade tornam-se mais raras em uma velocidade, se bem considerada, alarmante. Áreas assim chamadas marginais tais como as sob clima semi-árido tornam-se cada vez mais consideradas passíveis de se agricultar numa maior escala do que hoje em dia. A questão é: a prática de agricultura em regiões semi-áridas, particularmente no semi-árido brasileiro, é sustentável?
A definição do Technical Advisory Commitee of the Consultative Group on International Research (TAC/CGIAR) de sustentabilidade na agricultura é a seguinte: “Agricultura sustentável é o manejo bem sucedido de recursos para a agricultura, de modo a satisfazer as necessidades humanas em transformação, mantendo ou melhorando, ao mesmo tempo, a qualidade do ambiente e conservando os recursos naturais.”
A agricultura convencionalmente praticada no semi-árido nordestino, além dos baixos índices de produtividade (não se está aqui considerando os perímetros irrigados nem áreas afins) tem causado, desde o começo da colonização européia porém mais drasticamente no último século, uma dramática mudança na paisagem da região, e por dramática mudança entenda-se degradação indiscriminada, chegando-se ao ponto da deterioração irreversível em alguns sítios.
Praticada desde antes do Descobrimento, a derrubada da vegetação nativa para implantação de roçados foi, até determinado período em que a pressão populacional não era ainda tão intensa, uma atividade que talvez se adequasse a alguns quesitos do conceito de sustentabilidade. A prática corrente era o desmatamento, a queima e o plantio na mesma área por dois anos consecutivos. O período de pousio (período de “descanso” do solo) que se seguia aos roçados permitia que a vegetação secundária se reconstituísse provavelmente até o estado de equilíbrio dinâmico (clímax) antes de sofrer uma nova perturbação para reinicio do ciclo.
O aumento da densidade populacional, no entanto, e a demanda por alimentos e outros bens de consumo fez com que o habitante do semi-árido explorasse a terra além da capacidade produtiva da mesma. Não obstante o aumento das áreas desmatadas, o tempo de pousio foi muitíssimo encurtado, impossibilitando a recomposição da vegetação nativa bem como a reconstituição da fertilidade natural dos solos. A chegada do colonizador europeu não mudou os métodos extrativistas de uso da caatinga já utilizados pelos aborígines mas intensificou a pressão sobre os recursos naturais.
O que se pode observar claramente hoje é que não apenas a agricultura ou a agropecuária praticadas no semi-árido são insustentáveis mas todo o modelo de exploração da caatinga atualmente em uso carece de sustentabilidade ecológica e econômica e a propósito disto pode-se citar exemplos de representantes da fauna e da flora nativas que ou já se extinguiram completamente ou correm sério risco de extinção, além das enormes perdas de solo por erosão, dentre outros problemas ambientais.
Escrito por Italo M. R. Guedes




